Luiza Bandeira

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Bailarina,coreógrafa,personal training. Criadora do material didático para bailarinos e professores ( Apostilas de Ballet) Premiada em vários Festivais como bailarina e coreógrafa. Luiza Bandeira também atua dando workshops em festivais e como jurada. Formada em pela Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, Ed. fisica (Faculdade Plinio Leite), Históra de Dança e da artes, terminologia do Ballet entre outros. Atualmente vive em Mar del Plata Argentina expandindo seu trabalho como professora de ballet clássico, contemporâneo,jazz, alongamento y flexibilidade. Na área fitness atua com classes de Gap,combat, spinner,musculação. Solista na Cia A Escena com direção de Marta Sol Bendahan, Maestra docente em Cidanza- Congresos de Danzas Internacionales em Cordoba , Villa Carlos Paz - Ar
Reciem aprovada para faculdade de Rey juan Carlos en Madri Espanha ( Instituto de Danza Alicia Alonso.
 Luiza Bandeira dedica seu maior tempo ao estudo do corpo e do movimento aperfeiçoando cada dia mais sua tácnica e seu trabalho.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Entrevista (Ana Botafogo)



  ANA BOTAFOGO por Luiza Bandeira

Ana Botafogo nasceu no dia 09 de junho na cidade do Rio de janeiro e iniciou seus estudos de ballet no conservatório da Urca, tendo aulas com Luciana Bogdanich, bailarina do Teatro Municipal na época.
  Após cursar o 1º período na faculdade, Ana viajou p/ França com o objetivo de estudar. Freqüentou a Academia Goubée e Academia de Dança Rosella Hightower, na França.Já na Inglaterra freqüentou o Dance Center.
  Após fazer concurso p/ o Ballets de Marseilles, início então sua carreira profissional.
Participou de festivais em Lausanne(Suíça),Veneza(Itália),Havana (cuba),do espetáculo em homenagem à Legião de Honra da França, no Palácio de Versailles, e na Gala Iberoamericana de La Danza, dirigida por Alícia Alonso, realizada em Madri(Espanha) em comemoração aos 500 anos de descobrimento das Américas.
  Escolheu por continuar sua carreira no Brasil, foi Bailarina principal do Teatro Guairá,da Associação de Ballet do Rio de Janeiro e em 1981, ingressou por concurso público como 1º Bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeoiro.
  Em 1995, na qualidade de “étoile” convidada da Companhia da Ópera de Lodz(Polônia), interpretou o principal papel feminino do Balé Zorba, o Grego, dançando em várias cidades do Brasil.
  Já tendo se apresentado na Europa, Américas do Norte, Central e Sul. É considerada, uma das mais importantes bailarinas brasileiras, por sua técnica, versatilidade e perfeição da arte.

Diário Catarinense
14 de maio de 2009 | N° 8436

ENTREVISTA
Com o balé impresso no corpo e no olhar
A energia parece não ter fim para a bailarina Ana Botafogo, que fala nesta entrevista sobre sua carreira que começou há mais de 30 anos na França


A postura sempre firme. Ombros para trás, pescoço erguido, queixo para cima, barriga para dentro. Sem querer, os pés também insistem em apontar para fora.

Com ou sem tutus, sapatilhas de ponta, coque no cabelo ou com alguma música instrumental ao fundo, Ana Botafogo, 51 anos, tem o balé impresso no corpo e no olhar 24 horas por dia. Nesta entrevista ela passeia por sua trajetória nos palcos, reconhece que a hora de parar está próxima, mas ressalta que ainda dança, ensaia e interpreta com a mesma energia de quando começava a vida de bailarina clássica profissional, há mais de três décadas, na França.

Ela estreou recentemente o espetáculo Suíte Floral - As Quatro Estações. A performance impecável e expressiva faz com que sua idade seja um detalhe irrelevante. Ou, quem sabe, um fator que só aumenta a admiração do público pela maior bailarina clássica brasileira. Entre as aulas de seu último semestre de faculdade de Dança, ensaios, apresentações, turnê com o balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e projetos pessoais, ela continua em busca de novos desafios.

Pergunta – Você é uma bailarina clássica, um dos símbolos do Teatro Municipal. Mas esse espetáculo é bem contemporâneo. Como é sua relação com a dança moderna?

Ana Botafogo – Minha formação é clássica e minha praia é essa. Mas, atualmente, tenho deixado os grandes espetáculos de balé para o Municipal. Neste espetáculo novo eu fujo um pouco disso. Danço descalça, de salto, de cabelo solto e tive também a ideia de usar a barra de exercícios de dança no palco. Faço alguns movimentos bem modernos nela, coisas de mentes contemporâneas (referindo-se ao diretor Luis Arrieta). Sinto dores que nunca havia sentido antes. É uma experiência nova. Mas não sou uma dançarina da Débora Colker. Foram dois meses de preparação.

Pergunta – Para uma bailarina, qual o pior episódio que pode acontecer em um palco?

Ana – Escorregar, perder o equilíbrio. As contusões também são sempre uma preocupação. Eu mesma levei muitos anos da minha carreira para cair. Todo mundo comentava: “Poxa, você nunca caiu?”. Até que um dia, no Municipal, durante uma apresentação de Dom Quixote, aconteceu. Na minha primeira aparição em cena eu fazia uma grande entrada. Pisava no palco e dizia: “Cheguei!”. A gente dançava sobre um tecido pintado à mão e estava escorregadio. Entrei em cena e na hora que pisei eu caí e fui deslizando. Foi uma pancadona, mas levantei e continuei. O corpo de baile me deu muita força na hora. O público aplaudiu para dar força também.

Pergunta – Episódios assim abalam a performance?

Ana – Muito. Fiquei abalada, doída e chateada. Dancei mais cinco ou sete minutos antes de sair de cena. Foi horrível, não podia reclamar ou botar a mão no local dolorido. Não podia chorar. Ou você chora e perde o fôlego, ou se concentra e vai em frente. No intervalo coloquei um gelo e depois ainda voltei a dançar. Fui para casa e acordei no dia seguinte com uma dor imensa. Tive uma distensão e não conseguia mexer o pescoço. Não pude dançar mais naquele fim de semana. Bailarina em grande companhia tem que ter substitutas por isso.

Pergunta – Você fala sempre nos treinos, na dedicação. Seguir o balé clássico foi uma opção de renúncia?

Ana – Com certeza. A gente vê tanta criança talentosa, meninas que adoram dançar, mas que não estão a fim de fazer aula todo dia. Ninguém dança bem se não treinar muito. São oito anos de treinamento puro, no mínimo. Minha infância foi normal. Mas a partir dos 12 anos, era balé todos os dias. Entrei para uma academia mais conceituada, mas ainda não achava que ia ser profissão. Ensaiava e me dedicava. As amigas reclamavam da minha falta de tempo, mas hoje elas bem que gostam de ver as apresentações. Lembro que eu achava o balé muito difícil. Pensava que era impossível entrar para o corpo de baile do Municipal. Aí, aos 18 anos, entrei na faculdade e fui morar com um tio diplomata em Paris. Dois meses e meio depois eu fiz um teste para uma companhia francesa de balé, passei e isso mudou minha vida radicalmente.

Pergunta – Já pensou em largar a dança? Desistir de tudo?

Ana – Quando a gente se machuca, essas coisas passam pela cabeça. Já tive muitos machucados. Uma vez eu estava passeando com meu cachorro no parque perto de casa e, assim, de graça, torci o pé feio. Fiquei em depressão. O guarda veio me ajudar, e a dor era tanta que eu pensei que estava com uma fratura exposta. Mas foi só uma torção. Lembro que a minha empregada falou: “Dona Ana, deixa que eu dou puxãozinho e ponho no lugar” (risos.) Imagina? Eu não sabia se chorava ou ria. Já quebrei uma vértebra em um acidente de carro, tive inflamações no joelho. Os piores momentos são mesmo quando a gente se machuca. E acha que vai ter que começar tudo do zero outra vez.

Pergunta – Há muita pressão sobre sua aposentadoria, o dia em que vai parar de dançar definitivamente?

Ana – Há 10, 15 anos já me perguntavam isso. A bailarina Márcia Haidée, uns 20 anos mais velha que eu, anunciou o fim da carreira certa vez, aí os jornalistas a confundiam comigo e me perguntavam: “Agora que você fez sua despedida, como vai ser?”. Eu nem pensava nisso ainda. É óbvio que eu penso. Eu não tenho uma data marcada. Só sei que quero parar dançando bem.

Pergunta – A idade influi nas personagens que você faz?

Ana – Recebo convites para todos os tipos de personagens, mas eu prefiro evitar algumas. A camponesinha, a menininha… Tem muito balé que eu não faço mais. Não pela técnica, mas porque não combina mais comigo. Não tem nada a ver. Não quero mais fazer as heroínas. Existem personagens para o meu momento, minha idade. Nunca gostei de falar de idade. Sei que eu tenho uma carreira mais extensa que o normal. Nesse último espetáculo, por exemplo, me sinto à vontade. Sou eu. É o meu momento, minhas rugas, não interpreto ninguém. Penso em parar sim. Não vou dançar até os 70. Sou uma bailarina clássica e por isso o dia que eu parar com o Municipal, vou parar de dançar. Está próximo, mas ainda tenho muitos trabalhos em vista.

Pergunta – Consegue se imaginar longe dos palcos?

Ana – O teatro seria uma maneira de eu ficar mais em cena. Tive um convite da Marília Pera. Nunca fiz teatro e estou tendo umas aulas. Ela foi ver o espetáculo Giselle e me convidou no dia seguinte para uma personagem que não tem nada a ver com dança. É uma comédia, e deve ficar para 2010. Mas eu acho que nunca vou ficar afastada da dança. Adoraria estar sempre ligada, de outras formas, ao Municipal. Não fico triste com o fim da carreira se aproximando. São etapas da vida.

Pergunta – Sua experiência atuando na novela Páginas da Vida teve a ver com essa possibilidade de trabalhar futuramente como atriz?

Ana – Talvez. Trabalhar na televisão foi um desafio. Uma coisa que eu não precisava. Fiz um nome na dança. Tinha muita gente que tinha medo de me ver atuando. Minha própria família. Meu pai falou, depois, que achava que eu ia estragar minha carreira. Podia ter dado errado. Mas eu achava que seria interessante. Achava que ia ensaiar, fazer workshops antes de entrar em cena. Que nada. Foi uma coisa louca. Eu chegava lá e já falavam: “Gravando!”. Novela é muito rápido. Os textos chegavam em cima da hora e eu ficava em pânico. Eu achava que iam me dirigir, mas fui aprendendo na marra. Mas trabalhar com atores como a Glória Menezes e o Tarcísio Meira foi maravilhoso.

Pergunta – E qual foi a cena mais difícil?

Ana – Quando eu tive que dar um tabefe na cara da minha filha na novela. Eu achava que aquilo estava errado. Mesmo não tendo filhos, eu achava que para uma mãe bater na cara da filha tinha que ser algo muito sério. Fui discutir com os diretores falando “gente, mãe não bate assim”. Todo mundo ria. No texto lá, estava escrito assim: “Não queremos um tapa de brincadeira, é para bater para valer”. Tinha que ser verdadeiro. Pensa? Eu fiquei enlouquecida e aflita com essa cena. Era a última do dia a ser gravada. Fiz muitas gravações antes, atrasou tudo. Demorou tanto que bati logo de uma vez de tão cansada que eu estava (risos).

Pergunta – Então valeu a pena fazer televisão?

Ana – Valeu a pena. Acho que não foi tão mico da minha parte. Eu pude falar de dança e de balé. Sabe o que é você ficar no ar, por 10 meses, no horário nobre, falando de balé clássico, que nunca ninguém fala? Já pensou lá no Xingu, ou não sei onde, as pessoas saberem o que é uma aula de balé? Eu achei muito legal. Foi um risco. O Manoel Carlos depois me escreveu um cartãozinho lindo, dizendo que me achou muito corajosa e outras coisas. Eu adorei.

Pergunta – Assim como no mundo fashion, há pessoas que afirmam que o balé incentiva essa cultura da magreza excessiva. A dança exclui as gordinhas?

Ana – Olha, para o clássico, precisa ter o biotipo mais magro que nem no esporte. Tem que ter leveza, o bailarino tem que carregar a parceira, não dá para ficar fora de forma. Agora dançar, todo mundo pode. Hoje em dia, inclusive, as bailarinas contemporâneas são bem maiores. Mas as bailarinas clássicas têm que ser mais esguias mesmo. O que não quer dizer passar fome. Tem que se alimentar muito bem para ter energia para seis horas ou mais de treino.

MARIA FERNANDA SEIXAS | Correio Braziliense/DC